A convite da Mistral Importadora, tive a oportunidade de viajar a Mendoza para conhecer de perto o universo da Catena Zapata, uma das vinícolas mais importantes da Argentina e uma das grandes responsáveis por transformar a percepção mundial sobre os vinhos do país.
Mais do que uma visita a uma vinícola, essa viagem foi uma imersão em uma história construída entre família, pesquisa, terroir de altitude. Em Mendoza, aos pés da Cordilheira dos Andes, a paisagem já revela a força do lugar: montanhas imponentes, vinhedos desenhados em meio ao clima seco e uma relação profunda entre natureza, tempo e precisão. Ali, cada detalhe parece contribuir para a identidade dos vinhos, mostrando que grandes rótulos nascem muito antes de chegarem à taça.
A trajetória da família Catena se funde com a própria evolução do vinho argentino. Esse movimento ganhou força especialmente a partir da visão de Nicolás Catena Zapata, que nos anos 1980 viveu um período decisivo na Califórnia, onde pôde acompanhar de perto a transformação de Napa Valley em uma região de vinhos reconhecidos mundialmente.
Foi ali que Nicolás entrou em contato com referências que mudariam sua forma de enxergar o potencial da Argentina: o cuidado mais preciso com os vinhedos, a valorização da Malbec como variedade capaz de produzir grandes vinhos e o uso de barris de carvalho francês para construir rótulos mais elegantes, complexos e longevos.
Mas o grande mérito dessa revolução não esteve em simplesmente reproduzir um modelo estrangeiro. Nicolás compreendeu que a Argentina precisava encontrar sua própria identidade. Por isso, aplicou esses aprendizados levando em consideração os detalhes e as peculiaridades do território argentino: a altitude, a luminosidade intensa, a amplitude térmica, os solos de origem aluvial e a influência da Cordilheira dos Andes. Foi dessa união entre referências internacionais e expressão local que nasceu uma nova fase para os vinhos argentinos.
Hoje, esse legado segue vivo também através de Laura Catena, quarta geração da família e uma das grandes mulheres do mundo do vinho. Médica, bióloga, autora e atual diretora da Bodega Catena Zapata, Laura representa uma nova etapa da história familiar: uma visão que une tradição, ciência e sensibilidade para continuar elevando o vinho argentino no cenário internacional.
Foi ela quem fundou, em 1995, o Catena Institute of Wine, centro de pesquisa dedicado a estudar os vinhedos de altitude, preservar a diversidade genética da Malbec e aprofundar o conhecimento sobre os terroirs argentinos. O instituto trabalha em colaboração com universidades e equipes técnicas, com o objetivo de compreender cada parcela, cada solo e cada detalhe que influencia a identidade dos vinhos. Essa abordagem científica reforça algo que fica evidente durante toda a visita: na Catena, a tradição familiar caminha lado a lado com a pesquisa.
Durante a viagem, um dos momentos mais marcantes foi conhecer o vinhedo Angélica, que carrega uma dimensão histórica e afetiva muito forte para a família Catena, já que seu nome homenageia Angélica Catena, mãe de Nicolás Catena Zapata. É dali que nascem vinhos de grande prestígio dentro do portfólio da vinícola, rótulos que valorizam antigas parcelas de Mendoza e revelam uma expressão profunda, elegante e muito particular da Malbec argentina. Estar ali foi compreender que, na Catena, a tradição familiar não aparece apenas nos nomes, mas também no cuidado com cada parcela, preservada e interpretada como memória viva de uma história construída ao longo de gerações.
Outro ponto alto da imersão foi a visita ao vinhedo Adrianna, em Gualtallary, no Alto Valle de Uco. Se Angélica representa a memória e a origem, Adrianna revela o lado mais extremo, científico e visionário da Catena. Localizado a quase 1.500 metros de altitude, o vinhedo nasceu de uma decisão ousada de Nicolás Catena Zapata: plantar videiras em uma região onde muitos acreditavam que as uvas não conseguiriam amadurecer. Hoje, Adrianna é apresentado pela própria vinícola como o “Grand Cru da América do Sul”.
Visitar Adrianna foi perceber a dificuldade e, ao mesmo tempo, a beleza de produzir vinho em um território tão extremo. A altitude impõe desafios: clima mais frio, amadurecimento mais lento, maior exposição solar, solos diversos e uma necessidade constante de observação. Nada ali parece simples ou automático. O cuidado está em cada detalhe, da divisão das parcelas à leitura dos solos, da condução das videiras à interpretação de cada microterroir.
E foi justamente a partir dessa visita que uma das maiores surpresas da viagem ganhou ainda mais força para mim: os brancos de altitude. Em uma região tão associada ao Malbec, encontrar Chardonnays com tanta tensão, frescor, mineralidade e profundidade foi uma experiência marcante. Esses vinhos mostram uma Mendoza menos óbvia, mais precisa e extremamente elegante.
Os brancos me surpreenderam pela combinação entre delicadeza e intensidade. Eles têm acidez viva, textura, profundidade e uma sensação de energia que revela o quanto o clima de montanha pode transformar a expressão de uma uva. Foi uma descoberta perceber que a altitude não apenas intensifica os vinhos, mas também pode trazer elegância, tensão e uma complexidade surpreendente.
Além da Catena, a viagem também permitiu conhecer mais sobre a finca Tikal e os projetos de Ernesto Catena, que exploram uma relação mais sensível e integrada com a natureza. Vinhos biodinâmicos, identidade artística e rótulos como Alma Negra mostram outra expressão do vinho argentino, mais livre, misteriosa e conectada à filosofia de seu produtor.
Ao longo de toda a viagem, ficou claro que Mendoza é muito mais do que a terra do Malbec. É uma região de contrastes, onde tradição e inovação caminham juntas. A Catena Zapata representa exatamente esse encontro: uma vinícola que honra sua história familiar, mas que nunca deixou de pesquisar, experimentar e buscar novas formas de expressar seus vinhedos.
Essa experiência reforçou minha admiração por uma vinícola que transformou a altitude em linguagem, o terroir em identidade e a pesquisa em um caminho para a excelência. Em cada garrafa da Catena, existe um pouco da Cordilheira, da história da família e da determinação argentina em mostrar ao mundo a grandeza de seus vinhos.
Por Ana Luiza Poliseli Fávero
